Ja que não saiu no Reator...(esse Uol é uma merda...tive que dividir em dois. Continua embaixo.)

O que menos importa é a nicotina
Ricardo Monteiro
[21/06/2005]
O cigarro é, obviamente, figurinha carimbada em grande parte das cenas do filme. Mas não é o mote.
Nicotina, filme mais recente do argentino naturalizado mexicano Hugo Rodriguez (de En Médio de La Nada), se propõe a encontrar graça na falta de ética de uma classe média urbana e medíocre, partindo, para isso, da paródia e dos estereótipos. Transforma Lady Macbeth, esposa abnegada de um barbeiro-excrupuloso-e-apaixonado-pelo-que-faz, em uma assassina psicótica; as aventuras sexuais da vizinha-charmosa tornam-se com o passar do tempo caso de vida ou morte. Estopim para essas mutações: dinheiro.
À primeira vista, imagina-se um filme decomposto, formado por histórias quase independentes. O hacker Lolo (interpretado pelo excelente Diego Luna, de E sua mãe também e Frida) consegue acesso às contas de um banco suíço ao mesmo tempo que monitora, através de um circuito de câmeras e microfones, todos os passos de sua adorada vizinha instrumentista. Após um princípio de incêndio (proposital) em seu apartamento, mete-se numa confusão com mafiosos russos e estelionatários mexicanos que, a partir daí, partem para as ruas da Cidade do México em busca de diamantes perdidos. E aí as histórias paralelas se misturam.
Escrito por carioca-mineiro-paulista às 21h58
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O que vale não é a forma
Trata-se de um roteiro bem realizado que, por si só, já garantiria um bom filme para os mais descolados. O visual moderno, concebido através de brincadeiras de câmera, montagem ágil e trilha sonora marcante, é condizente com - para não dizer determinado pela - a trama pop, atual, cheia de coincidências, diálogos bem desenhados e viradas repentinas. Mesmo que nem tão repentinas assim, já que reinventam truques já bem sucedidos nos norte-americanos Pulp Fiction e Réquiem para um Sonho ou no latino Amores Brutos, as reviravoltas são eficazes. O filme, porém, não pretende (nem pode) ser inovador ou marcante por esse sentido, mais importante que a forma se torna o desenrolar da trama.
Nicotina consegue mostrar despretenciosamente (e, por isso, os chatos de plantão torceram o nariz) a mente perversa e gananciosa que convive latente com o dia-a-dia chato da classe média. O dinheiro torna-se a principal, e mais justa, forma de “salvação” e solução dos problemas de uma musicista sonhadora, um hacker apaixonado e uma ajudante de barbeiro frustrada. Mais ainda: a figura de um jovem contraventor passa a ser quase a de um Don Juan na vida de uma comerciante de casamento falido; a ganância e a falta de escrúpulos se tornam temperos nas vidas mornas destas pessoas.
E o uso claro de personagens estereotipadas não diminui essa eficiência. Ao contrário, além de reforçarem (não a ponto de perder verossimilhança) a construção das mentes monstruosas, trazem ao filme um indispensável ar cômico e agradável. Sim, a história que discorre sobre os desvios de conduta do ser humano, é light, facilmente digerível. Um voyeur, dotado da mesma mente “disgusting” de William Baldwin em Invasão de Privacidade, é hilariamente interpretado por Luna, através das mancadas de um nerd desajeitado; enquanto isso, o visual e sotaque carregado aliviam a tensão sobre o mafioso russo carrancudo. Nicotina acerta: utiliza-se de figuras do lugar-comum para mostrar a volubilidade da psiquê, apresenta figuras pré-definidas no imaginário ao mesmo tempo que foge do maniqueísmo.
O cigarro, tema recorrente durante a trama, de fato só acompanha estas histórias. Aparece como um coadjuvante de luxo, daqueles que estão presentes quase o tempo todo, praticamente não fazem diferença, e ainda determinam o nome do filme.
NICOTINA
(Nicotina)
Dir: Hugo Rodriguez
Com: Diego Luna, Marta Belaustegui, Lucas Crespi
MEX/ARG/ESP, 2003
Escrito por carioca-mineiro-paulista às 21h58
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