(A merda do Uol não permite textos grandes. Divido, então, em dois. Nada de preguiça porque tá sensacional. E, por favor, elogiem o novo layout, deu MUITO trabalho)
SAMBA DE BAMBA NA PORTARIA
Seu Eires era um baixinho invocado. Apesar dos ínfimos um e sessenta e três, olhava pra todos de cima pra baixo. Paradoxalmente, porque para tanto era preciso mirar as quinas superiores das paredes. Tinha ar de barão.
Barão decadente, não há dúvida. Quando jogava poker com os amigos, não se importava em perder, tanto fazia; bastava-lhe ao menos ser o primeiro a calcular os números, a reproduzir as apostas, estava muito mais para croupier. Sempre tivera potencial, nunca fora aproveitado – dizia todotempo.
No auge do vai-e-vem de aptidões com que sua vida se desenhava, decide, aos sessenta e seis, ser porteiro numa ruela do Catete. ‘Flamengo!’, bradavam os deselegantes moradores, embasados, orgulhosos, em um erro dos Correios.
O trabalho não era ruim: resumia-se a estar sentado todo o dia, ouvindo todos os jogos de seu Olaria e o resumo de notícias da Nacional em seu radinho de pilha. De quebra, uma ou outra fofoca, duas ou três picuinhas; a toda hora, o rebolado das mamães e a azia das velhinhas.
‘No meu tempo a molecada n’era mole desse jeito, não. Era pá-pum: olha pra rapariga, dá-lhe uma florzinha e mete-lhe a piroca, não tem papo furado!’, assegurava pro garoto de treze anos do 203. ‘Botafogo é o time do canguru. Só pula, mais nada’, segredava entre gargalhadas à dona Aurora, a velha viúva do 603 que jurava detestar ao menos olhar ‘pro rosto torpe do esqueleto da portaria'. Cochilar durante a labuta também não trazia conseqüências mais sérias, resultava no máximo numa bronca enraivada da síndica pianista.
Dona Truka era alemã, chegou à cidade no terceiro ano do XX, acoxambrada no ventre de uma dançarina de can-can flagrada com cocaína adulterada em Amsterdã. Tudo o que nunca fora na vida a maquiava em suas conversas secas com o velho Eires. Everuscka Truka, que nunca resistira 23 dias no mesmo emprego, fizera um curso de piano por correspondência e desde então vivia do lecionar, desprendendo rimas de Abba ou de Lennon pr’um aluno qualquer. Conquistara prestígio graças ao ar de modernidade, o lenço jogado no pescoço e o cinto roxo na altura do umbigo; a ralé realmente a olhava com deslumbre. O porteiro, em contrapartida, nunca lhe tratou com o menor respeito.
Certa noite, Eires tinha um compromisso de gala. Jorge, o menino do Bicho, avisou que haveria festa no morro, com direito a sambinha de Ari Barroso, bateria da verde-azul e lança-perfume a dois vinténs a noite toda. ‘Ótima chance pr’uma fungada’, pensou ao enlaçar a borboleta, dois microssegundos antes de Truka esmurrar a porta.
Escrito por carioca-mineiro-paulista às 10h56
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- Mein Got, eu pensar que o senhorra teve uma infarto! Te veste lôgo que eu tenho um tarêfa pro você – berrou em sustenido, enquanto puxava o homem pelos ombros para o corredor.
- Não, não e não! Hoje é meu dia e não vai ser a tua cara feia que vai estragar. Vade-retro, velha nazista!
A alemã imediatamente fechou os olhos e sentiu o sangue subir. Num passe de mágica, era vermelha, um morango gigante. Fechou também as mãos e num gesto inesperado socou com gosto o ventre magro do Eires engravatado.
(O porteiro tentou por muito tempo abrir os olhos, mas era em vão. Tudo rodava, o vestido de dona Truka se misturava com o azulejo do hall de entrada, seu crânio vibrava e movia-se sozinho, dançando com a visão embassada).
Mas o velho reagiu e só o que conseguiu fazer foi se lançar sobre o corpo ofensivamente gordo da outra. De olhos ainda fechados, beijou seu patuá e voou pro meio daquelas carnes molengas, num afã, primordialmente, sanguinário.
Ilumina-se aqui o primordialmente porque, como nos melhores momentos da vida – aqueles em que a vontade acumulada resolve criar pernas e sexo, e age por impulso – a Frau sessentona despiu-se de qualquer decência e decidiu se mexer. Com a mesma facilidade e sorriso espumante com que uma criança mutila as patas de um inseto, Truska imobilizou os frágeis bracinhos do garboso porteiro. Parecia uma lutadora de verdade, entortou-lhe as mãos como numa trança mal-feita e deitou-lhe no chão, estático por condição.
De súbito, abriu a bocarra enorme e aplicou-lhe o beijo mais molhado de sua vida. Sugava com gosto as entranhas do velho, enquanto alisava com vigor sua falta de carnes. Mesmo que quisesse, Eires não poderia reagir. O porteiro amassado apoiou-se, então, nesse álibi de meia arroba e deixou-se entregar aos prazeres da libertinagem, sobre o tapete vermelho-decadente do corredor de entrada.
Beijavam-se enlouquecidamente, nenhuma palavra, os olhos sempre fechados, a respiração acelerada. O elevador trouxe dona Aurora, que se limitou a gritar e sair correndo, mesmo depois de ter enganchado o vestido no salto do sapato da velha Truska e criado um rasgo que chegava-lhe até as coxas. Urrava, bestificada.
Sob a mesa do porteiro, o garoto do 203 ria-se mexendo todo o corpo, esperando ansioso pela hora em que o velho ‘meteria a piroca’ em alguma parte da dona síndica. A rua toda parou pra assistir o balacobaco inusitado: a turma do bar, da mercearia, o homem da banca de jornal, as crianças do parquinho; todos espremidos ao redor do vidro sujo da portaria.
Eires e Truska perceberam, é claro, mas não se importavam. Queriam um ao outro e limitavam-se a aproveitar.
Beijaram-se por mais três minutos e se desgrudaram. A alemã levantou-se rapidamente enquanto ainda tentava, em vão, arrumar o cabelo e fechar os quatro botões que lhe faltavam no vestido florido. Entrou ligeira no elevador, cantarolando Dancing Queen em ré bemol. Eires permaneceu onde estava por mais alguns segundos; depois ajeitou a camisa dentro do suspensório colorido, desentortou a gravata-borboleta e saiu andando rumo ao morro e à bateria da verde-azul. Até tentou, mas não achava forma de conter o leve sorriso safado que insistiu em se alojar no cantinho de sua boca.
Mais do que nunca olhava para todos de cima para baixo. Esse era seu dia.
‘Mais um pouco eu perco essa bosta de virgindade, pode escrever', resmungou para si, enquanto assobiava, feliz, pelas esquinas tortas do Largo do Machado.
Escrito por carioca-mineiro-paulista às 10h54
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Ultimamente Senhor Blógue tem estado autobiográfico...
Escrito por carioca-mineiro-paulista às 18h02
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PERVERSÃO
O primeiro cigarro do dia, nu, ainda na cama, era sempre o melhor. Cheiro da noite anterior, gosto de fumaça, elo com a vadiagem.
Nada podia ser mais confortável do que a velha sensação de embriaguez permanente. Acordar com os olhos inchados, pesados, os sentidos arrastados, a boca seca, o gosto indecifrável de tabaco, álcool e saliva misturados, e passar o dia todo assim. O que finalmente se tornava um hábito – para uns, sinal de alerta, digno de cuidado – era, sem dúvida, garantia de bem viver, ‘ser todo, em tudo’.
E esses dias pós-gandaia não se arrastam pesados como supõem os caretas; ao contrário, fluem bem, são mais leves. Por um capricho qualquer que não se explica, tudo ganha uma tensão diferente: o corriqueiro passa a merecer um sorriso safado; nos que se vê sempre, enxerga-se novidade; na boca ao lado beija-se a da frente. Tudo sob a névoa suja, bem vinda, pejorativamente chamada por alguns de ressaca.
A noite não demorava a chegar e tudo começaria novamente. Mais suor, outros cheiros, mais cigarros, outros toques, mais álcool barato, outros becos e mais vontade. Mais vontade.
À perversão.
Escrito por carioca-mineiro-paulista às 14h54
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ALIVIADO
Tava pensando aqui nos diálogos interblóguicos. Coisa interessante isso, acontece muito!
Radiohead é muito bom mesmo. Sempre uma boa trilha...
As 'três drogas', quase garantidas. Um chamado dos Strokes pro showzinho.
Bolinhas°
.Poesia assoprada.
Boas, a todos!
Escrito por carioca-mineiro-paulista às 14h31
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MEIO DIA E QUARENTA E NOVE.
Desânimo (ab)surdo. E foda-se se esse tema é o allStar-camisa-de-banda dos blogs, dos diários cor de rosa ou das músicas que você pseudisa. Não agüento mais dar satisfações, muito menos as que tento dar pra mim. E racionalizar é a maior merda que alguém já inventou – depois de relativizar.
Todas as preocupações estúpidas da última estação pipocando ao mesmo tempo: crise absoluta de identidade, falta incondicional de perspectiva, medo irracional dos outros, hibridização de vontade e asco. Tudo inconvenientemente travestido de sorriso amarelo, as usual.
E como é tênue a porra da linha que separa os que deviam estar perto dos que podiam explodir. Todos bolinhas coloridas num globo de bingo. Jogo da vez: implosão, cabeça escolhida: 22, dois patinhos na lagoa. (palmas). Recoloquem os sorteados no globo, próxima rodada, novo jogo, só daqui a três minutos. (tensão). Cabeça escolhida: cabeça.
O que agora é vermelho, vivo e pulsante é velho, viscoso, é pus, agora. tudoaomesmotempo.
Se já tenho, não preciso de outro igual, preciso do oposto, é o que dizem; o pior é que concordo, podre. A possibilidade mais razoável, ter o tido (atemporal) e o oposto (consensual) ao mesmo tempo, é fakismo da sociedade, desculpa de mal resolvido. Não, não é pra interpretar mesmo, muito menos entender.
Porque as sessões de auto-ajuda não funcionam, pas du tout. Onde já se viu tentar normal-izar o que quer ser, infeliz-mente, estranho? E que ainda por cima só mostra o rabo do tatu? O rabo do tatu...
Se as nuvens que a mim são pretas fossem pretas pra todos, menos mal seria. Mas há os que colorem – com a mais irritante das naturalidades – com os tons de pastelaria. Meu REINO por essa aquarela, aqui, agora, com manual de instruções e satisfacção garantida.
Brilho eterno blábláblá no dos outros é refresco de gardenal.
(eu) - Bruxavagabunda!
(angústia) - Quieto.
Escrito por carioca-mineiro-paulista às 13h14
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EROS reúne Antonioni, Kar-wai e Soderbergh
Michelangelo Antonioni, Wong Kar-wai e Steven Soderbergh: três diretores consagrados, nascidos em três diferentes continentes. Três histórias independentes, livremente desenhadas em torno de um só tema, o erotismo, em um só filme, Eros. Tudo isso além da trilha sonora sul-americana, assinada pelo, já almodóvariano, Caetano Veloso. Convenhamos: nomes fortes e sexo, jogada comercial maior não há.
Antonioni se comporta literalmente como o hors concours que é. Do alto de seus 93 anos recém completados, o italiano não precisa mais de brilhantismo – ou mesmo de real qualidade – para ser visto. E elogiado. Os cinéfilos de plantão se esforçam para reconhecer e interpretar, em Il filo pericoloso delle cose, os takes elegantes, a bela fotografia e a linguagem hermética que trouxeram fama ao diretor; consideram a cena em que uma taça de vinho desliza sobre o chão brilhante, poética. Em contrapartida, os que nunca viram nada de Antonioni – e, conseqüentemente, não estão contaminados pela inevitável “vontade de elogiar” dos experimentados – consideram a pretensa não linearidade da narrativa tempo-espacial banal e sem pé nem cabeça; ruim, no final das contas. Por maior que pareça o sacrilégio, melhor ficar com os últimos.
Soderbergh, que assinou o pipocão 12 Homens e Outro Segredo, não vai além das espectativas e realiza a mais “acessível” das três histórias. Equilibrium, rodado quase todo em preto-e-branco, conta com as caras e bocas de Robert Downey Jr. para narrar, de forma engraçadinha, a visita de um homem atormentado a seu terapeuta, uma figura estranha que voyeriza pela janela enquanto o paciente sofre as agruras de um sonho recorrente. Nem bom nem ruim, até arranca algumas risadas, mas frustra qualquer pretensa tentativa de alusão a erotismo ou sexualidade.
The Hand, o trabalho do aclamado chinês Kar-wai, vale por si só todo o filme. Melhor, mereceria para si todo um filme. A mais hermética das três histórias, é a única que consegue realmente criar um ambiente tenso, sexual, como prometia a sinopse geral. A história de um costureiro, que nutre um desejo – na maior parte do tempo – platônico por uma prostituta de luxo na Hong Kong dos anos 50, deixa hipnotiza toda a platéia, vibrando com os planos inusitados que mostram, com uma suavidade misturada com força, a beleza cruel da decadência da messalina vivida pela ótima Gong Li. Aqui finalmente se encontram o peso tentado por Antonioni e a angústia que se pretendia em Equilibrium.
Eros segue uma inusitada progressão. Parte do obsoletismo do italiano, passando pela história rasa do norte americano, e culmina na sutileza e eficiência do oriental.
É... se vista com os olhos certos, não é tão inusitada assim.
www.cinetotal.com.br
Escrito por carioca-mineiro-paulista às 17h38
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