TÔNICA
Sonny Green resolveu ir à boate. Banho não tomou, mas vestiu a melhor camisa
velha, a mais bem rasgada das calças, o chinelinho de couro e foi. Antes do
rock propriamente dito, decidiu uma parada estratégica no Trepo Torto.
-
Que-que tu tem de forte? – ao homem do balcão - O tríceps, ha ho he há ho.
- Uísque nacional com tequila, por favor. - Ahn? Misturados?
SG
até se arriscou a virar tudo de uma vez só, mas não segurou e deu uma ligeira
vomitada.
- Ha ho he há ho. - Tá rindo de quê, garçon idiota? -
Da cara que aquela loirona fez quando você cuspiu a bile!
- Posso sentar contigo, moça? - Só se pagar o rum. - Vê dois, rapá!
- Penny, e já deixo avisado que tu não vai me comer – disse estendendo a
mão. - SG pros íntimos, hehe... – respondeu, forçando a barra pr’um beijinho
na bochecha.
O tríceps demorava a trazer as doses e a falta de assunto sentou pra ler os
classificados. SG decidiu agir, antes que fosse mais tarde.
- Tô indo pra festinha de rock, afim? - Isso é piada, Sem Graça? Com esse
chinelo tu não entra nem em forró.
A gostosa virou a dose e pediu mais
uma. SG percebeu o desafio e propôs um jogo.
- Se eu virar o gim, o uísque e a tequila, tu vai comigo e com o chinelo pra
festa. - É rum. - ... - E se não virar, me deixa cinquenta reais e a
sua calça. - Quê? Tu tá querendo que eu saia daqui pelado, safadinha? –
ensaiando uma piscadela pauloricardo. - Não, não é isso. A tua
calça já está vomitada, o prognóstico diz que a situação vai piorar... Fuma?
Ele ofereceu o Marlboro.
- Não, idiota. Tô falando de outra coisa... - Ah, tá; não. Dos vícios, só
três. - Pior pra você, e eu não vou perguntar quais são... – riu enquanto
acendia o baseado – Então o teu negócio é rock? Tá indo pra onde?
BJ falou o nome da boatezinha da moda. Ela morreu de rir e cuspiu a fumaça.
- Aquilo lá é uma merda. Rock de verdade não tá dentro de boate... -
Papo furado! Vai dizer que tu não dança? - Não danço. - Faz o que então?
- ... Garçon, traz uísque e tequila. - Hmm... Topou a aposta? - Só
porque tô precisando de grana.
Sonny Green virou os dois. E arrematou com o gim.
- É rum, brother.
Já falei... - Foda-se. O que importa é que eu virei e já tá ficando tarde.
Anda, levanta! - Levanta? Tá louco? - Louco é louco, imbecil é outra
coisa. Tu falou que ia comigo, agora vai! - Hahaha, não mesmo.
Penny levantou-se, foi ao balcão e comentou, rindo, alguma coisa com o
garçon. Ele respondeu:
- Ha ho he há ho! Tem certeza? - Lógico!
SG apareceu, entorpemputecido.
- Cês dois tão falando de mim, né? Anda, diz na cara! - ‘diz na cara’?
Não fode, cara... tô ocupada agora – e passou pro outro lado do balcão.
- Tu perguntou se ela tinha certeza. Certeza do que, mané? -
Ninteressa, rapá! Agora sai, que a gente tá ocupado... - Ah... mas vocês
dois não vão MESMO se pegar na minha frente! - Não... - Não. - Vão
fazer o que, então, porra?
A loira e o garçon nem precisaram se esforçar pra frase de efeito. De efeito
mesmo foi o desmaio do SG, apagado e vomitado em cima da ovarada
amarela do balcão de vidro.
- Ha ho he há ho! - Ha ho he há ho!
Escrito por carioca-mineiro-paulista às 18h07
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