Todos Juntos! "À insônia, um bom dia!"
Era um boteco elitista em Botafogo e a mesa de Beto era a mais animada. Engraçadamente, todos vomitavam sem parar seus eloqüentes pensamentos de esquerda - ele, inclusive - ao mesmo tempo, ao mesmo tempo que brincavam com as chaves de seus carros ou com enormes pedras penduradas em anéis de formatura; cafonas, muitos.
O papo parecia de fato enfadonho mas Beto não arredava da conversa, sabia que Lídia adorava a discussão. A maior parte daquilo que ela dizia parecia-lhe brilhante; a parte restante, provavelmente avaliada durante súbitos surtos de sanidade frente ao álcool, soava-lhe definitivamente estúpida. "Não importa".
Já no primeiro momento em que os olhares se cruzaram, e pararam, um daqueles impulsos irracionais mais fortes que o bom senso tradicional o acometeu. Apontou, nervoso, com os olhos, para o embaixo da mesa e sem qualquer palavra afundou-se na cadeira, feito sabão escorrendo no banho. Os segundos sob a mesa devem ter-lhe parecido horas. Justifica-se: Tina apareceu apenas poucos instantes após a descida, e o encontrou ensopado de suor e com as unhas todas roídas. Beto só sorriu.
Alice não o encarava com coragem, provavelmente havia concluido que faltava-lhe experiência nesse tipo específico de flerte. Sorria, tímida, desviando-se dos sapatos e sandálias que vez por outra insistiam em chutar-lhe ou pisar em seu cabelo. O curioso é que, nessas horas, ambos sentiam um alívio tremendo; concluiam tranquilos que ninguém nada percebia e recebiam de bom grado as topadas pelo corpo.
- E agora, que fazemos? - Não sei, vamos deixar acontecer.
Mas dois segundos-hora e:
- E aí, chegou a hora de acontecer? - Acho que s...
A velha história se repete: beijaram-se. Um beijo longo e conturbado, é verdade, interrompido pelo vigoroso chute de um exaltado rapaz que, inconformado, quase arrumou briga quando ouviu de um que Fidel é homossexual e vive há tempos um caso tórrido de amor com um renomado médico costa-riquenho. Nessa hora, Beto quase decepou(?) a língua de Linda e precisou pedir desculpas.
Voltaram à mesa como se nada anormal houvesse acontecido e não tornaram a se olhar em nenhum momento, até a hora em que todos pagaram a conta. Bete sorriu, então, docemente, levantou-se, despediu-se de todos, atravessou o balcão e, não sem antes olhar para trás, deu um beijo forte e comprido no garçon mais feio, indo em seguida embora. Beto não hesitou. Matou-se.
Enfiou um garfo sujo de gordura goela adentro após concluir que Olívia seria sua alma gêmea, seu par, a mulher de sua vida, e que a havia perdido para um pinguim vesgo e careca. Percebeu a possível precipitação tarde demais, quando os olhos não mais podiam ficar abertos por causa do sangue.
Todos riram compulsivamente. Chamaram-no de romântico e voltaram pra casa.
*
Clap.Clap.Clap.
Fotildo Nuñes ganhara quatro prêmios e tivera esse texto publicado em alguns pequenos jornais locais; até na TV-Puc ele apareceu. Hoje, muito tempo depois, o autor mora em Paraty, sozinho numa casa até boa, a uns 15 a pé da praia. Dizem que tornou-se um homem realizado e feliz, rodeado de mulheres, dinheiro suficiente e prestígio. Costumava dizer por aí que num dia próximo morreria sorrindo, sozinho, num fim de tarde, boiando calmo na praia da Soneca após beber umas e outras com os amigos.
E disso eu não tenho a me-nor dúvida.
Escrito por carioca-mineiro-paulista às 12h40
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